Bipolaridade
Sinto-me abissalmente engolida
por um buraco negro, que se desenvolve dentro de mim. Ordenar os pensamentos,
os sentimentos, as emoções, mais que difícil, é primordialmente confuso. Sou
uma amálgama, uma amálgama de tudo. Tenho presente os resquícios de um passado
em que era outra, possivelmente pintado a rosa pela artista perversa a que
chamamos memória. Era outra. Era jovem, e inconsequente. Sentia profundamente,
tão profundamente quanto sinto hoje. Mas não era assombrada por demónios
mentais que me fazem entrar em estado de paranóia, chegando mesmo a perder o controlo
sob mim mesma. Sinto-me uma sombra, uma silhueta desengonçada de uma rapariga
que não consigo descrever. Como é que eu era? Sei que era mais feliz, mas não
consigo definir concretamente as diferenças. Será que estou simplesmente a ser
assimilada por esse monstro obscuro que a psicologia chama ansiedade? A minha
mente a criar fantasmas que me assombram, que me perturbam a existência, que me
enevoam até mesmo a percepção de quem sou. Mil monstros, mil monstros mentais,
que definiremos como passado, presente e futuro. A tentativa desesperada de
recuperar aquela rapariguinha destemida, que ria sem constrangimentos, e
lançava os cabelos ao vento com a segurança de quem tem o mundo na mão. Os
espectros dos amigos, como fantasmas do natal passado, que não consigo
exorcizar. Porque é que não sou como aos outros? Porque é que não sou capaz de
aceitar, esquecer e continuar? Porque é que me continuo a martirizar com
saudades dos que partiram da minha vida, e a culpar-me (com, ou sem razão) pelas
suas partidas prematuras? Porque é que continuo a deixar que o vazio que as
saudades que eles deixaram, e as memórias dos tempos felizes que passamos, me
consumam? Porque é que abomino a ideia de perder os que me são queridos, mas
vivo na certeza dessa expectativa? Porque é que não sou capaz de roubar
estrelas, e coloca-las nos olhos, para replicar o brilho que eles tinham no
passado? Porque é que não sou capaz de lutar, de capa e espada, contra todos os
demónios que me assombram? Os que crio, e os que criam para mim. É como se
estivesse dentro duma espiral, dum vortex cerebral que não consigo parar. Down
and down she goes, down the rabbit hole… a consciência… chego ao ponto de nem
sequer me sentir eu, de não conseguir estabelecer um paralelismo com a
realidade. Oscilo, como já me disseram, entre o pó de fada dos dias felizes, em
que nada me perturba o espírito, em que encaro os dias com naturalidade,
segurança, e um grande sorriso no rosto. Sou feliz, mas só para de seguida
ficar outra vez triste. E aí…
down, down, down, through the rabbit hole to god knows where. Abruptamente,
a tristeza, a confusão, a depressão, o desespero, a insegurança, o sentimento
de desfasamento da realidade, e já não sei quem era ontem. Os fantasmas do
passado e do presente aliam-se, como dois terroristas mentais. Mas o futuro,
invejoso, também quer dar uma mãozinha. E aí, começo a questionar-me. Duas
vozes lutam dentro de mim. Há aquela que grita que não sou nada, que em nada me
poderei tornar, e que o futuro é fumo negro. Essa, a malvada, ri-se de mim.
Diz-me que mereço sentir tudo o que sinto, porque fui eu que o causei. Que sou
imperfeita, irremediavelmente imperfeita, e que nunca poderei mudar isso. E a
outra, mais ténue, que me sussurra ao ouvido que sou forte, que já atingi muito
na vida, e que me mais poderei conseguir, se lutar. Às vezes deixo-me embalar
por essa voz suave, quase hipnotizante, e entro no mundo dos sonhos… Sou feliz,
com a minha cara-metade, numa casinha com um baloiço à entrada, trepada por
heras…
To be continued.
Etiquetas: divagação, emotions, expectations


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