domingo, 4 de maio de 2014

Pilulas que curassem saudades. E por aí em diante...


A saudade é como  um doce veneno, que estimula enquanto entorpece, preenche enquanto esvazia, provoca lágrimas e sorrisos, na mesma medida. Temos saudades porque vivemos, porque amámos, porque sentimos, e porque perdemos. Porque éramos, e já não somos. Porque as memórias, podem aquecer o coração ou gelar a alma, mas não são ultimamente tangíveis. As saudades são filmes 5-D do passado, guardados na película mental. Mas... e as saudades do que gostamos, mas está longe? Sempre soube que era dramática, mas ultimamente tenho percebido que sou, em igual medida, mimada. E isto nunca me tinha ocorrido. Não tive uma infância particularmente difícil ou fácil. Fui amada, e embalada nos braços da minha mãe em noites de choro. Passei natais à laia de contos de fadas em família, nos quais aguardava expectante o pai natal, na sala da minha avó. Chorei lágrimas amargas, das mil vezes mil, vezes, que tive desacatos com o meu pai. Os meus pais, embora me tenham guiado, nunca me mimaram particularmente. Sempre cresci na certeza de ter, em certa medida, formado autonomamente aquilo que sou. Será que devo culpar as expectativas que os meus pais, e o mundo, colocaram em mim? Não, não quero ter um trabalho de merda. Não quero passar 8 horas fechada num local que abomino, a fazer coisas que detesto. Não quero ter um trabalho servil, nem quero desperdiçar a vida. Mas serei eu mais que outra pessoa qualquer, se talvez pouco faça por isso? Na vida, empunho uma espada mental, e tento não deixar que os outros me inflijam golpes sem receberem estocadas. Esta perspectiva não está correcta a 100%, nem se pode aplicar a tudo, mas têm uma base plausível. A que devemos lutar por aquilo a que temos direito, e não deixar que nos pisem. O meu pai costuma dizer-me, que ainda hei-de comer muita merda na vida. Acho que é verdade, embora espere não ter de comer muita. Não quero desperdiçar a vida. Quero sentir-me realizada, embora ainda não saiba o que me poderá proporcionar essa realização. Quero os confortos da cidade, e a liberdade do campo. Quero fugir ás pressões sociais, evoluir enquanto me mantenho eu própria, ou me torne uma versão melhor de mim mesma. A Vanessa dos 17 anos está perdida, ou talvez adormecida... Espero que a segunda hipótese, cause that bitch had fuuun. Quero, acima de tudo, encontrar-me. A Vanessa dos 27, a metamórfica, a borboleta. A Vanessa borboleta actual é cinzenta, com as asas quebradas... Ás vezes tenta batê-las, mas mais frequentes são ás vezes que se deixa ficar. Que chora porque a vida é injusta, que se odeia, que refila e se auto descompõe. Que pensa, mais veemente que uma turbina eólica, uma gazela a fugir de um leão na savana africana, um comboio movido a vapor. Mas o pensamento é frequentemente envenenando pelo negativismo, e aqui ficamos. A Vanessa idealiza, sonha, inventa. Mas não mexe, pouco luta, não faz. Em questões laborais, não sabe o que quer. Sabe que se quer sentir inspirada, preenchida, que a vida tenha sentido. Sabe que está numa demanda, física e espiritual, pela tranquilidade. No plano dos afectos, finalmente concretizados, quer resolver todos os problemas ideológicos, racionais, emocionais. Quer partilhar a vida com o príncipe encantado, filhos, animais de estimação, e tardes solarengas em charnecas, e prados altos cobertos com erva e flores. Quer abraços, quer perder-se e navegar nos olhos daquele que detêm o seu coração. Quer uma família sua, filhos seus, que passem natais tão encantados como os seus foram. Quer resolver e curar os malefícios do passado, os fantasmas, quer paz.

Paz.

É só isto. Obrigada.

 

sábado, 3 de maio de 2014

Bipolaridade



Sinto-me abissalmente engolida por um buraco negro, que se desenvolve dentro de mim. Ordenar os pensamentos, os sentimentos, as emoções, mais que difícil, é primordialmente confuso. Sou uma amálgama, uma amálgama de tudo. Tenho presente os resquícios de um passado em que era outra, possivelmente pintado a rosa pela artista perversa a que chamamos memória. Era outra. Era jovem, e inconsequente. Sentia profundamente, tão profundamente quanto sinto hoje. Mas não era assombrada por demónios mentais que me fazem entrar em estado de paranóia, chegando mesmo a perder o controlo sob mim mesma. Sinto-me uma sombra, uma silhueta desengonçada de uma rapariga que não consigo descrever. Como é que eu era? Sei que era mais feliz, mas não consigo definir concretamente as diferenças. Será que estou simplesmente a ser assimilada por esse monstro obscuro que a psicologia chama ansiedade? A minha mente a criar fantasmas que me assombram, que me perturbam a existência, que me enevoam até mesmo a percepção de quem sou. Mil monstros, mil monstros mentais, que definiremos como passado, presente e futuro. A tentativa desesperada de recuperar aquela rapariguinha destemida, que ria sem constrangimentos, e lançava os cabelos ao vento com a segurança de quem tem o mundo na mão. Os espectros dos amigos, como fantasmas do natal passado, que não consigo exorcizar. Porque é que não sou como aos outros? Porque é que não sou capaz de aceitar, esquecer e continuar? Porque é que me continuo a martirizar com saudades dos que partiram da minha vida, e a culpar-me (com, ou sem razão) pelas suas partidas prematuras? Porque é que continuo a deixar que o vazio que as saudades que eles deixaram, e as memórias dos tempos felizes que passamos, me consumam? Porque é que abomino a ideia de perder os que me são queridos, mas vivo na certeza dessa expectativa? Porque é que não sou capaz de roubar estrelas, e coloca-las nos olhos, para replicar o brilho que eles tinham no passado? Porque é que não sou capaz de lutar, de capa e espada, contra todos os demónios que me assombram? Os que crio, e os que criam para mim. É como se estivesse dentro duma espiral, dum vortex cerebral que não consigo parar. Down and down she goes, down the rabbit hole… a consciência… chego ao ponto de nem sequer me sentir eu, de não conseguir estabelecer um paralelismo com a realidade. Oscilo, como já me disseram, entre o pó de fada dos dias felizes, em que nada me perturba o espírito, em que encaro os dias com naturalidade, segurança, e um grande sorriso no rosto. Sou feliz, mas só para de seguida ficar outra vez triste. E aí… down, down, down, through the rabbit hole to god knows where. Abruptamente, a tristeza, a confusão, a depressão, o desespero, a insegurança, o sentimento de desfasamento da realidade, e já não sei quem era ontem. Os fantasmas do passado e do presente aliam-se, como dois terroristas mentais. Mas o futuro, invejoso, também quer dar uma mãozinha. E aí, começo a questionar-me. Duas vozes lutam dentro de mim. Há aquela que grita que não sou nada, que em nada me poderei tornar, e que o futuro é fumo negro. Essa, a malvada, ri-se de mim. Diz-me que mereço sentir tudo o que sinto, porque fui eu que o causei. Que sou imperfeita, irremediavelmente imperfeita, e que nunca poderei mudar isso. E a outra, mais ténue, que me sussurra ao ouvido que sou forte, que já atingi muito na vida, e que me mais poderei conseguir, se lutar. Às vezes deixo-me embalar por essa voz suave, quase hipnotizante, e entro no mundo dos sonhos… Sou feliz, com a minha cara-metade, numa casinha com um baloiço à entrada, trepada por heras…

To be continued.  

Etiquetas: , ,