
A saudade é como um doce veneno, que estimula enquanto entorpece, preenche enquanto esvazia, provoca lágrimas e sorrisos, na mesma medida. Temos saudades porque vivemos, porque amámos, porque sentimos, e porque perdemos. Porque éramos, e já não somos. Porque as memórias, podem aquecer o coração ou gelar a alma, mas não são ultimamente tangíveis. As saudades são filmes 5-D do passado, guardados na película mental. Mas... e as saudades do que gostamos, mas está longe? Sempre soube que era dramática, mas ultimamente tenho percebido que sou, em igual medida, mimada. E isto nunca me tinha ocorrido. Não tive uma infância particularmente difícil ou fácil. Fui amada, e embalada nos braços da minha mãe em noites de choro. Passei natais à laia de contos de fadas em família, nos quais aguardava expectante o pai natal, na sala da minha avó. Chorei lágrimas amargas, das mil vezes mil, vezes, que tive desacatos com o meu pai. Os meus pais, embora me tenham guiado, nunca me mimaram particularmente. Sempre cresci na certeza de ter, em certa medida, formado autonomamente aquilo que sou. Será que devo culpar as expectativas que os meus pais, e o mundo, colocaram em mim? Não, não quero ter um trabalho de merda. Não quero passar 8 horas fechada num local que abomino, a fazer coisas que detesto. Não quero ter um trabalho servil, nem quero desperdiçar a vida. Mas serei eu mais que outra pessoa qualquer, se talvez pouco faça por isso? Na vida, empunho uma espada mental, e tento não deixar que os outros me inflijam golpes sem receberem estocadas. Esta perspectiva não está correcta a 100%, nem se pode aplicar a tudo, mas têm uma base plausível. A que devemos lutar por aquilo a que temos direito, e não deixar que nos pisem. O meu pai costuma dizer-me, que ainda hei-de comer muita merda na vida. Acho que é verdade, embora espere não ter de comer muita. Não quero desperdiçar a vida. Quero sentir-me realizada, embora ainda não saiba o que me poderá proporcionar essa realização. Quero os confortos da cidade, e a liberdade do campo. Quero fugir ás pressões sociais, evoluir enquanto me mantenho eu própria, ou me torne uma versão melhor de mim mesma. A Vanessa dos 17 anos está perdida, ou talvez adormecida... Espero que a segunda hipótese, cause that bitch had fuuun. Quero, acima de tudo, encontrar-me. A Vanessa dos 27, a metamórfica, a borboleta. A Vanessa borboleta actual é cinzenta, com as asas quebradas... Ás vezes tenta batê-las, mas mais frequentes são ás vezes que se deixa ficar. Que chora porque a vida é injusta, que se odeia, que refila e se auto descompõe. Que pensa, mais veemente que uma turbina eólica, uma gazela a fugir de um leão na savana africana, um comboio movido a vapor. Mas o pensamento é frequentemente envenenando pelo negativismo, e aqui ficamos. A Vanessa idealiza, sonha, inventa. Mas não mexe, pouco luta, não faz. Em questões laborais, não sabe o que quer. Sabe que se quer sentir inspirada, preenchida, que a vida tenha sentido. Sabe que está numa demanda, física e espiritual, pela tranquilidade. No plano dos afectos, finalmente concretizados, quer resolver todos os problemas ideológicos, racionais, emocionais. Quer partilhar a vida com o príncipe encantado, filhos, animais de estimação, e tardes solarengas em charnecas, e prados altos cobertos com erva e flores. Quer abraços, quer perder-se e navegar nos olhos daquele que detêm o seu coração. Quer uma família sua, filhos seus, que passem natais tão encantados como os seus foram. Quer resolver e curar os malefícios do passado, os fantasmas, quer paz.
Paz.
É só isto. Obrigada.